Sunday, September 08, 2013

· Entrevista: Identidade de Gênero ·


Olá, amigos.

Esta noite fui entrevistado para propósitos acadêmicos sobre identidade de gênero, e julguei ser interessante oferecer a entrevista aqui, para esclarecer dúvidas e sanar curiosidades sobre minha identidade, que tem sido de interesse de muitos ultimamente. A entrevista foi conduzida por Victor Yañez, amigo trans de longa data, e talvez uma das pessoas que mais me ofereceu compreensão, consolo e empatia no mundo, sobre essa questão e diversas outras. Agradeço de coração o interesse em me incluir em seus estudos, e espero que o que se segue seja proveitoso para vocês.
Fotografias: auto-retratos.

Como você disse que não se identifica com masculino ou feminino, existiu algum momento específico em sua vida que você tenha notado que não bastaria assumir o papel de um homem ou uma mulher?
É muito difícil se desvencilhar desses ideais "masculinos" e "femininos", são construções sociais tão enraizadas na nossa cabeça que mesmo você não se identificando com nenhum dos dois, acaba se obrigando, mesmo que de forma inconsciente, a agir conforme um ou outro em determinadas situações. Mas esses papéis só podem avançar até certo ponto para uma pessoa trans; são como véus, fachadas incompletas. Eu me sinto um ator, acho que toda pessoa trans se sente como um ator. Tendo que desempenhar certos papéis incondizentes e incompletos, querendo ou não, porque parece ser a única forma de adquirir um mínimo e abstrato respeito dos outros. E não basta, não adianta o esforço que você faz. Esse respeito não vem. Então, parece não fazer diferença desempenhar esses papéis ou não.

Então que lugar na sociedade você gostaria de ocupar?
Não sei dizer. Não me identifico com nenhuma dessas duas construções, não tenho como me identificar com elas. E são as únicas opções que eu tenho. No fim das contas, o que me deixa mais confortável é poder transitar entre ambas, aprendendo a ter empatia pelo modo como esses sistemas funcionam, mas com a certeza de que eles são caminhos que eu não consigo seguir até o fim. Gostaria que o caminho que a pessoa trans segue fosse reconhecido e validado, já que é impossível desconstruir completamente esse ideal binário que só serve para nos distanciar cada vez mais. Gostaria que houvesse um espaço para nós. Enquanto não há, a gente vive à margem. Não fomos nós que nos colocamos ali.

Imaginando uma sociedade diferente; como seriam tratadas pessoas não-binárias?
Acho que nessa sociedade, o conceito de dualidade seria completamente abandonado, então as pessoas "não-binárias" seriam apenas "pessoas", como todas as outras. Aceitaríamos a diversidade enorme de seres humanos com naturalidade, e com certeza teríamos mais espaço e oportunidades para poder viver uma vida mais digna, que é o que todo mundo quer no fim das contas.

Você acha que a sua identidade "dupla" (para melhor entendimento) te afeta em suas relações sexuais? Em que ponto você leva esse "teatro", como disse, para suas relações íntimas?
Até o momento, as pessoas me tratam na cama conforme o que veem no físico. Parecem compreender perfeitamente o que é ser "transgênero", mas na hora dessa intimidade, adotam uma postura mais primitiva, do tipo "o que você vê é o que é". É um pouco frustrante. E, pelo menos para mim, é uma dificuldade enorme ser visto como alguém com quem você dividiria a cama. Geralmente as pessoas te tratam como uma boneca de porcelana, bonita de se olhar, mas definitivamente não como algo para fazer sexo. É como se ser trans apagasse os seus genitais completamente, independente da associação sexo-gênero (que é errada) ou não.

Voltando pra sua resposta anterior, sobre a sociedade idealizada: você acha que ela não é alcançável?
Acho que essa sociedade nunca vai existir. Pelo menos, não em um cenário de tempo no qual eu consiga me ver. O ser humano é auto-destrutivo na sua busca por compreensão: nós vamos desvendar absolutamente todos os mistérios do Universo em detrimento de nós mesmos. Nunca vamos nos compreender por completo. Nunca existirá real empatia a ponto de fundamentalmente mudar as estruturas do que a gente entende agora. É como pensar em mudar o sistema do patriarcado: nós conseguimos imaginar e aceitar com mais facilidade o colapso irremediável do meio-ambiente e dos governos do mundo, do que conceber a ideia da mudança para sistemas femininos de liderança (como Antony Hegarty fala). Se nós não conseguimos nem ao menos imaginar o feminino liderando o mundo, quem dirá conseguir imaginar uma sociedade que aceite pessoas trans do modo como se deve.

Você sente atração por outras pessoas não-binárias?
Na mesma medida que sinto por pessoas "binárias". Sim, mas não a ponto de me envolver com alguém. Não sinto mais vontade de me envolver com qualquer coisa.

E você acha que sua identidade colabora para que você se sinta assim?
Talvez isso tenha afetado, de certa forma. Crescer em conflito com sua própria anatomia causa uma série de efeitos "negativos"/"restritivos" em questões sexuais; e até você se iluminar mais, já é tarde, e os traumas acabam fazendo parte de quem você é. E superar traumas são desafios enormes, porque são os diabos que a gente não consegue encarar de frente.

Qual relação você tem com seu corpo hoje em dia?
Eu não odeio mais o meu corpo. Aprendi a desassociar o gênero do sexo biológico, e isso ilumina a mente de uma forma muito positiva. Você acaba aprendendo a funcionar dentro do corpo que tem, e passa a respeitá-lo, pois é a única coisa verdadeiramente sua. Você faz dar certo, na medida do possível. Quando o seu corpo deixa de ser seu principal inimigo, ele é o que deve ser: um escudo para todo o resto. E isso só prova que "gênero" vai muito além do conceito físico.

Você já tomou ou considera tomar hormônios; iniciar uma transição?
Não, pois não desejo e jamais desejei pertencer ao sexo biológico oposto do meu. Não acho que isso faria qualquer diferença. Talvez facilitasse um pouco mais os caprichos de querer refletir o físico de acordo com o que eu vejo na minha mente, mas é um esforço que eu simplesmente desconsidero. Como eu disse, aprendi a aceitar o meu corpo como ele é. E ele não precisa ser "masculino" ou "feminino". Gosto de pensar que tenho a liberdade de absorver para mim mesmo esses dois conceitos e descaracterizá-los. Pelos não precisam ser masculinos; vestidos não precisam ser femininos. E ambos podem existir na mesma pessoa, e não há nada de errado nisso.

Você já fez terapia com algum profissional de psicologia?
Não, embora não duvide de que isso possa funcionar para algumas pessoas. Sempre me pareceu que levar este tipo de coisa para um psicólogo acabaria caracterizando como uma "doença" ou um "distúrbio", e eu jamais conseguiria conviver com isso. Falo pessoalmente: é só uma questão minha.

E essa questão te trouxe dor, como disse anteriormente. Como você lidava com ela? E ela ainda existe?
A dor vem da confusão, de todas as coisas impostas pelo mundo. Eu aprendi que a dor só vem de fora, inclusive o ódio que eu sentia por mim mesmo. É claro que esse tipo de coisa deixa suas marcas, e algumas não se apagam. Mas isso tudo dói bem menos do que já doeu antes.

Você tem com quem conversar sobre isso? Se sim, ajuda conversar? Ou parte mais da sua reflexão individual?
Tenho, sim. Pessoas trans acabam se sentindo sozinhas e isoladas, porque é o que a nossa sociedade faz: nos marginaliza e nos deixa ilhados, com a sensação de que estamos desamparados no mundo inteiro. Mas é só abrir um pouco os olhos e perceber que até a pessoa da casa ao lado pode "ser como você". E existe empatia suficiente de pessoas mais esclarecidas para te deixar confortável. No mais, acho que é necessário ocorrer integração e união de pessoas trans. É um sentimento bom saber que existem outros que passam pelo que você passa, para trocar experiências e acima de tudo, consolo.





Fondly,